Tudo começou em um dia qualquer de discussões no Twitter, um rapaz que sigo há um tempo por postar conteúdos de qualidade (ele realmente estuda) e ter poucos seguidores (até por que quem posta coisas técnicas e profundas não costuma ter muitos seguidores), teve um post viralizado ao fazer da Cardano. De repente, um jornalista da Cointelegraph responde dizendo que Crdano não é diferente da bitcoin cash! Fiquei pasmo. Esse jornalista pensou isso pois a Bitcoin cash estava criando uma funcionalidade de smart contracts. Mas imagine a ignorância de pensar que isso faz esse protocolo ser a mesma coisa que Cardano, que usa UTXO em smart contracts e tem tantas diferenças estruturais que faltaria espaço em um livro para citar todas. Como era de se esperar, o micro influencer técnico que eu seguia deu uma aula para ele explicando as diferenças, e esse jornalista seguiu discutindo falando as maiores asneiras possíveis.
Isso retrata bem o nível do jornalismo cripto no Brasil e no mundo. A gente não chega nesse assunto como quem entra numa sala branca e medita; entra como quem tenta atravessar uma feira barulhenta, onde cada banca grita “breaking!”, “urgente!”, “token dispara!”, “exchange faliu?” e, quando você puxa o fio de qualquer manchete, descobre que o novelo é uma mistura de press release, rumor de Telegram e leitura apressada de um contrato inteligente. Dá para fazer melhor, dá para fazer muito melhor e é curioso como os erros se repetem com uma previsibilidade quase mecânica.
Começo pelo motor escondido. A base econômica de boa parte dos portais cripto é publicidade direta de exchanges, afiliados, patrocínios de protocolos ou “parcerias estratégicas”. Isso por si só não estraga nada; o problema é quando pauta, tempo de publicação e até vocabulário começam a dançar ao som do caixa. Quando os incentivos premiam velocidade e conversão, o texto vira túnel: empurra o leitor até o link de cadastro, não até a compreensão. E a pressa instala o vício que manda em toda a cadeia: publicar antes de entender.
Como um erro nasce e se propaga

O roteiro é quase cinematográfico. Um “analista” posta uma thread com prints duvidosos; um site reempacota como nota breve; dois agregadores replicam; um terceiro coloca no título o que estava apenas insinuado; pronto, temos “mercado em pânico”. E ninguém volta para arrumar a bagunça quando a informação cai por terra. Correção é custo. Errata não rende clique. O leitor que se vire com a ressaca.
Aí você olha o parágrafo técnico e descobre que a tal análise “on-chain” é uma olhada em um dashboard público sem contexto, que os “endereços ativos” incluem um monte de automação, que o “TVL” foi confundido com “liquidez disponível”, que “queima de tokens” foi tratada como “redução permanente” quando, no contrato, a função permite resgates. Erro técnico sutil rende manchete barulhenta; acerto técnico silencioso rende… silêncio. E isso educa mal todo mundo.
O fetiche do título e a arapuca do preço
Existe um velho conselho de redação: se o seu título só funciona com interrogação, talvez você não tenha reportagem, tenha ansiedade. Em cripto, a interrogação virou muleta para empurrar especulação como possibilidade legítima. “Projeto X é golpe?” “Exchange Y insolvente?” “Regulador Z vai proibir?” Quase sempre a resposta é “não sabemos”. Mas a manchete plantou a imagem, e a imagem dirige o fluxo de capital mais do que a leitura fina dos dados.
O mesmo vale para o vício do gráfico de 15 minutos. Texto que se ancora apenas no preço mais recente vira boletim de torcida: quando sobe, é narrativa de triunfo; quando cai, é conspiração. O jornalismo profissional dá zoom in e zoom out, costura preço com fundamento, política monetária, microestrutura de mercado, profundidade de livro, dados on-chain, governança. O amador cola um screenshot e chama de análise.
Quando o repórter não sabe ler contrato e finge que sabe
Ninguém é obrigado a ser dev, mas quem cobre cripto precisa saber onde estão as armadilhas: funções de upgrade, multisig que muda quorum, parâmetros que alteram a emissão, oráculos com janelas de atraso. Não é sobre virar auditor; é sobre não transformar um comentário de Discord em “fonte técnica”. Jornais grandes erram feio aqui: tratam termos como “proxy”, “initializer”, “reentrancy” como floreio. Daí surge o parágrafo que afirma que “o contrato é imutável” enquanto, duas linhas à frente, cita um “admin” que pode pausar tudo.
Publicidade disfarçada de reportagem
Você reconhece o cheiro: “parceria estratégica”, “integração revolucionária”, “ecossistema vibrante”. É press release com capa de matéria. Falta o contraditório, falta o conflito, falta a pergunta chata. Se a peça não sobreviveria a três perguntas incômodas, não é reportagem; é marketing. E quando o marketing se veste de notícia, o leitor perde o termômetro. O mínimo decente é disclosure claro, separação visual e editorial entre anúncio e pauta, e uma cultura de recusar pressa quando o assunto mexe com dinheiro real.
Quer um exemplo de reportagem honesta e verdadeira? A página mais completa e verdadeira sobre ID Binance Code deixa bem claro que se trata de uma postagem de cadastro e cita todos os termos necessários, sem enganação. Já na Binance Square a realidade é outra e poucos artigos se salvam, esse postado recentemente com Binance code 2026 é um dos únicos que não mentem.
A praga do “copiar e rezar”
Agregadores fazem um serviço útil quando apontam para apurações originais. O problema nasce quando o ecossistema vira um espelho infinito: todo mundo copia todo mundo, e a origem da informação se perde. Sem origem, não há responsabilidade. Sem responsabilidade, não há apuração. E, sem apuração, qualquer “fonte próxima” ganha o mesmo peso do relatório público de um regulador.
Para visualizar o que acontece, vale um quadro rápido:
| Sinal de alerta no texto | O que provavelmente está acontecendo | Como ler com segurança |
|---|---|---|
| Manchete com interrogação (“X é golpe?”) | Falta apuração ou dado | Procure a evidência primária; se não houver, trate como opinião |
| “Dados on-chain indicam…” sem link | Chute com verniz | Exija link para tx/contrato/dash; sem isso, ignore a conclusão |
| “Especialistas dizem” sem nomes | Autoridade fantasma | Sem nome e cargo, não é citação útil |
| “Parceria anunciada” sem termos | Press release mal reescrito | Peça termos do acordo, prazos, contraprestações |
| “Token queima e oferta cai” | Confusão técnica | Leia a função; veja se é burn, lock, redeem ou apenas transfer para dead wallet |
| “Exclusivo” com base em tweet | Click com etiqueta premium | Verifique horário e fonte original; “exclusivo” não transforma rumor em fato |
O que os grandes poderiam fazer amanhã, sem desculpa
Um manual de redação específico para cripto caberia em três páginas e pouparia muita vergonha. Não é difícil:
- Linkar tudo que é dado. Se cita transação, endereço, contrato, governança, leva o leitor para a origem.
- Anotar hipóteses como hipóteses. Palavra que denuncia chute: “pode”. Palavra que denuncia honestidade: “não sabemos ainda”.
- Padronizar glossário. Circulating supply, FDV, liquidez, TVL, market cap diluído ou define direito, ou não usa.
- Checklist de risco antes de publicar. Quem perde dinheiro se eu estiver errado? O que posso medir agora? O que preciso perguntar?
- Separar editorial de comercial com muro alto, disclosure visível e veto de pauta patrocinada travestida.
E, já que estamos falando de rotina, dá para tornar verificável o que hoje é teatro. Uma pequena “trilha de apuração”, no rodapé “checamos A, B, C; consultamos D, E; faltam respostas de F”, educa o leitor e blinda a redação.
Ferramentas simples que mudam o jogo
A beleza de cripto é que muita coisa é pública por padrão. Falta usar.
- On-chain de verdade. Endereço, transação, bytecode, eventos. Uma matéria que fala de fluxo de tokens sem mostrar o caminho é um convite para mis-info.
- Governança. Se o texto fala de decisão comunitária, precisa linkar a proposta, o snapshot, o fórum. Sem isso, vira fofoca.
- Microestrutura. Slippage, depth, impacto de mercado. “Baleia vendeu” só significa algo quando comparado à liquidez.
- Reprodutibilidade. Se a análise usa um dashboard, explique filtros, intervalos e limitações. O leitor avançado refaz e confere.
E o leitor, faz o quê?
Ser cético não é fechar o coração, é abrir o caderno. Um pequeno ritual protege bastante:
- Ler o título como propaganda do autor e o corpo como proposta de evidência.
- Buscar o primeiro link para a fonte bruta. Não tem? Achar outra matéria.
- Diferenciar fato apurado de narração do preço. Preço é sintoma, não diagnóstico.
- Checar se há contraditório. Toda história tem alguém que discorda com bons argumentos.
- Criar uma pastinha de links primários. Em cripto, você volta a eles mais do que imagina.
“Mas existem boas redações”
Claro que existem, e merecem oxigênio. São as que atrasam cinco minutos e publicam certo, que mantêm errata viva e rastreável, que preferem perder um furo a perder a reputação. Boas redações não se sentem insultadas quando alguém pede link on-chain; se sentem amparadas. A imprensa amadurece quando os leitores param de premiar espuma e começam a premiar método.
Para editores que querem virar a chave
Dá para medir qualidade. Faça auditorias internas mensais: conte quantas matérias têm link primário, quantas têm errata, quantas confundem métricas. Pague bônus não por pageview, mas por impacto verificável: matérias que geram correções públicas de projetos, que ensinam algo novo, que ajudam a separar risco de ruído. E contrate uma dupla improvável: um repórter curioso e um engenheiro paciente. Deixe os dois sentarem lado a lado por três meses. O ganho de qualidade paga o custo no primeiro ciclo de hype que você não cobrir como torcida.
Um pequeno anexo prático
Um quadro rápido para pendurar na redação e no seu navegador:
- Antes de publicar: “Qual é o pior jeito honesto de ler este dado?”
- Ao citar alguém: “O que essa pessoa ganha se eu acreditar nela?”
- Ao usar jargão: “O leitor consegue refazer meu caminho apenas com os links?”
- Ao errar: “A minha correção se encontra com um clique a partir da matéria original?”
E, no meio de tudo isso, uma lembrança que vale para qualquer mercado, mas que em cripto é quase um mantra: informação é ativo. Não se negocia ativo sem due diligence, então não publique texto sem rastros.
No fim, o problema não é que cripto atrai amador. Todo campo novo atrai. O problema é quando o amadorismo vira padrão e se protege com barulho. A boa notícia é que a cura é acessível: método simples, transparência radical, humildade técnica. Esses três degraus transformam redações “grandes” em redações respeitáveis. E transformam leitores ansiosos em leitores exigentes, o único público que realmente melhora a imprensa.

